Pesquisadores buscam proteção para gravuras rupestres
Especialistas apontam que os registros podem fornecer pistas importantes sobre a fauna que viveu no Nordeste brasileiro em períodos remotos
| domingo, 5 abril , 2026
Em solo piauiense, pesquisadores e trilheiros estão mobilizados para preservar um verdadeiro “arquivo vivo” da pré-história: gravuras rupestres em formato de pegadas de aves, espalhadas em rochas de um povoado na região de São João da Fronteira, a cerca de 226 quilômetros de Teresina.

O grupo encaminhou, em julho de 2025, um pedido ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para a catalogação e proteção dos vestígios, que podem representar marcas de animais tridáctilos — espécies com três dedos em cada pata — que teriam habitado a região. Até o momento, não há datação oficial das gravuras.
Especialistas apontam que os registros podem fornecer pistas importantes sobre a fauna que viveu no Nordeste brasileiro em períodos remotos.
Descoberta e importância do sítio
As gravuras estão localizadas no povoado Malhada de Pedras, em uma área conhecida como “Pés de Ema”, nome dado pelos moradores que identificaram os desenhos ainda na década de 1980. A área, que antes era um assentamento, atualmente pertence à iniciativa privada.
O professor e pesquisador Gerson Meneses, do Instituto Federal do Piauí, conheceu o local em fevereiro de 2024 após ser alertado pela comunidade.
Segundo ele, os desenhos estão talhados em rochas situadas no leito de um rio e apresentam forte semelhança com pegadas de aves. “O que torna o sítio especial é o fato de ser composto por gravuras rupestres, algo mais raro nessa região do Piauí”, destacou. Meneses afirma já ter registrado mais de cem sítios arqueológicos no estado.
Turismo e preservação
O sítio ganhou visibilidade recente com a abertura da trilha Caminhos da Ibiapaba, rota de 186 quilômetros que liga o Piauí ao Ceará. O percurso conecta áreas dos biomas caatinga, mata atlântica e cerrado, podendo ser explorado a pé ou de bicicleta.
A iniciativa envolve os ministérios do Meio Ambiente e do Turismo, além do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, e busca incentivar o turismo sustentável aliado à preservação ambiental.
A trilha conecta pontos importantes como o Parque Nacional de Sete Cidades, o Parque Nacional de Ubajara e a Área de Proteção Ambiental Serra da Ibiapaba, refazendo antigos caminhos de tropeiros e comerciantes que cruzavam a região.
Estado de conservação preocupa
Durante uma ação de educação patrimonial em julho de 2025, organizada pela Rede Brasileira de Trilhas, a estudante Carla Tessiane Barbosa, da Universidade Federal do Piauí, visitou o local e realizou o cadastro do sítio junto ao Iphan.
Ela alertou para a necessidade urgente de conservação. “O estado de preservação é carente de cuidados. Identificamos presença de lodo sobre as rochas e lixo descartado nas proximidades”, relatou.
Barbosa também destacou o possível significado simbólico das gravuras. Segundo ela, as representações podem indicar uma relação cultural e espiritual entre povos antigos e a fauna local.
Conscientização e próximos passos
Ao longo da trilha, visitantes encontram mirantes, cachoeiras, grutas e diversos sítios arqueológicos. A região é considerada rica em arte rupestre, o que reforça a necessidade de ações educativas.
O diretor do Parque Nacional de Sete Cidades e representante da Rede Brasileira de Trilhas, Waldemar Justo, afirma que o trabalho de conscientização tem sido intensificado para preservar o patrimônio.
Proprietário de parte da área, Antônio Carlos Feitoza reconheceu a mudança de percepção sobre o local. “Antes víamos como simples rabiscos, mas hoje entendemos a importância histórica. Vamos trabalhar para que os visitantes ajudem a preservar”, disse.
A superintendente do Iphan no estado, Teresinha de Jesus Ferreira, informou que uma equipe será enviada para avaliar o sítio. “Vamos analisar o estado de conservação e propor medidas de mitigação e preservação”, afirmou.
A expectativa é que o reconhecimento oficial contribua para proteger o patrimônio e ampliar o conhecimento sobre a história antiga da região.
Fonte: Cidade Verde




